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Seguiu o caminho

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…ele estava em casa, isolado há 5 dias. Melhorando dia após dia.
Em tratamento de COVID, mesmo com teste rápido tendo dado negativo.
No quinto dia a oxigenação do dedo caiu para abaixo de 80. O levamos para a Beneficente.
Saímos enquanto a minha mãe dormia, para ela instintivamente não querer ir junto se expondo a risco.
Tomografia. Exames.
“O Quadro dele é grave, deve ser internado agora.” – Saímos de lá e fomos à Unimed. Lá chegando já foi para o isolamento.

“Diabete 350! Idoso, obeso, e ainda encontramos um sopro no coração. Paciente de risco” – Nem sabíamos dessa coleção toda antes, ele era duro na queda, não ficava doente e no isolamento só dizia que “estou bem”, “estou melhor”, “já estou bom”. O máximo além foi contar ao médico da Beneficente que teve “um leve cansaço”.

Em três horas o estado piorou muito. “Metade do pulmão comprometido. Precisamos entubar!”

O médico informou: “É de praxe antes da intubação fazermos um breve contato com a família”. Eu sabia muito bem o que aquilo significava, mas melhor achar que era um protocolo que não ia ter qualquer importância depois.
Fomos lá eu e Marcus.
Não me despedi, ele estava sorrindo, confiante. Entreguei logo o celular com minha mãe na linha – “Amanhã estou de volta”, ele disse a ela. Peguei na mão dele, dei um sorriso e disse: “Fique logo bom!” – “Tá!” Foi a última palavra dele, dita sorrindo.
Nada ali parecia tchau, ao menos pra mim.

Quatro dias. Pioras sucessivas. “O pulmão não desinflama”, “Hoje foi para a hemodiálise”, “Hoje surgiu trombo na perna e vai operar daqui a pouco”

Eu me fixava nas histórias de que “Fulano etava assim também e saiu bom”, “Um amigo nosso ficou 18 dias entubado e se curou”. O próprio médico que está me atendendo disse “Uma paciente minha se curou com 90% do pumão comprometido”.
Então, ainda é chance. Vai ficar bom!

Não ficou.

Meia noite ligaram da UTI da Unimed “Pedindo para ir lá”. Enfim…

Estou isolado em tratamento do mesmo mal, nem pude abraçar minha mãe, não estive presente no funeral.
Então, faço o que sou acostumado: escrever.

Bem, ele estava sorrindo, depois dormiu sedado, aí seguiu a viagem.
Lamentamos se não mantivemos a todos informados como deveríamos, foi uma sucessão muito rápida; e minha mãe a cada dez minutos perguntava e precisávamos explicar de novo.

Agora ele vai encontrar gente dele que eu nem conheci, rever uns Cunhas e agregados.
E talvez até encontre dois caras que ele era fã: Altermar Dutra e Paulo Sérgio.

Aliás, como não éramos de conversar muito, Altemar Dutra vem mesmo a calhar:

“Eu sou teu sangue meu velho, Teu silêncio e o teu tempo”

9 COMENTÁRIOS

  1. Que história meu amigo e melhor professor que já tive. Evangelista, ate o nome é abençoado, mas então…
    Quando ouço essas histórias lembro logo da minha mãe. Ela não esta entre nós pois vai completar quatro anos no dia 30 de julho, mas o que fica é o amor deixado por eles em nossos corações. Único bem deixado e tem um grande valor somente pra nos que amamos e fomos amados. A única certeza que tenho por ser cristão é que eles agora estão descansando até o dia de habitar a terra prometida, NOVA JERUSALÉM, no dia do juízo final. É claro que existe algo muito superior a tudo isso. Nós só esquecemos que nem esse corpo que habitamos, não é nosso. Foi emprestado e agora pra seguir o plano, temos que devolver. A história é feita por cada um de nós pois os erros e acertos é resultado das decisões tomadas. Uns nos chamam de louco, outros de nerdis eu prefiro ser lembrado como alguém que sempre ajudou o próximo. O difícil não é ajudar quando se tem dinheiro mas sim quando se tem pouco e decide dividir com o próximo. Meus sentimentos. Marcio Rogerio aprendiz da vida.

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