Algo em comum existe entre a MTV, SBT, MANCHETE, GLOBO e TUPI, e não é o fato de serem emissoras de TV. É que…

A TUPI, televisão do jornal Diários Associados, foi a pioneira no Brasil, instalada em 1950. Nos anos 70, entrou em problemas financeiros e, para piorar, estava em choque ideológico com o Regime Militar vigente, resultado: teve sua concessão cassada e seus canais de TV redistribuídos.

Três foram os canais que receberam o espólio da Tupi: Em São Paulo, a rede foi dividida entre o SBT e a Abril. No Rio, foi entregue à Manchete.

Em 1980, com a concessão já cassada, a TUPI funcionou por algumas semanas ainda, apesar de os funcionários terem proposto ao Presidente da República um acordo inédito: Eles mesmos iriam encampar a TV, se pagando com os lucros que gerariam. Não foi aceito. O que fizeram os funcionários foi inusitado: em cada intervalo comercial, irradiavam inserções dos artistas da TUPI com declarações de apoio à emissora, se lamentando pelo fim da rede e dizendo que a Tupi representava para o Brasil. Assisti a algumas dessas inserções, que passavam no intervalo da novela “Aritana” (que, aliás, foi interrompida).

A Manchete entrou em derrocada econômica após a morte de Adolpho Bloch, sendo vendida para a Rede OM, e depois para a Rede TV que, dizem, não estaria muito bem das pernas.

O SBT, ao contrário da MTV que está transmitindo o seu fim, fez algo inédito: Transmitiu sua própria inauguração – e, dentre as advindas do espólio da TUPI, é a única que se manteve sólida.

A Abril ficou 10 anos sem usar sua concessão, só vindo a propagá-la em 1991. Sem um modelo próprio, mas com uma “franquia”, a MTV.

A MTV era uma lenda no Brasil desde que foi criada, em 1982 – não passava aqui, mas já era falada. As suas vinhetas eram alardeadas em reportagens e revistas, vez ou outra. A Primeira vez que ouvi falar da MTV, pasmem, foi no “Video Show”, em 1985, onde teve um bloco inteiro de reportagem sobre o “Canal de TV que só passava clips 24 horas por dia” – De forma que quando ela foi instalada no Brasil, já chegou com o marketing pronto e cheio de expectativas.

Digam o que quiseram da MTV, mas foi ela o sustentáculo do rock e pop nos anos 90 que, como já escrevi em posts anteriores, quase morreu, ainda mais no Brasil. Era na MTV que eu buscava músicas novas para ouvir no WalkMan – qualquer pessoa que tenha entrado na adolescência de 1990 pra cá tem algo a contar sobre algo que assistiu na MTV, ou seja: De alguma forma, fez parte de nossa vida nem que seja em 0,00001%.

Ela começou a transmitir na segunda metade de 1990, e só iniciava a transmissão pela parte da tarde, só depois passando a ser em tempo integral. Aliás, ela começou a perder sua respeitabilidade no início de 2000, quando começou a propagar clipes de pagode, sertanejo e forró: foi como se traísse seu público. Depois, foi deixando a música de lado, tendo mais programas não-musicais. Embora critiquem tal mudança, acho que isso foi consequência do fato dos clips poderem, “agora” (lá se vão uns 10 anos) serem acessíveis facilmente nos Youtubes da vida. A MTV só se adequou.

Assim como a Manchete e a Tupi. A MTV chega ao fim. Há uns dois meses os programas focam na despedida da emissora (que passará às mãos da Viacom, a dona do canal – saindo da abril). Semana passada foi o último programa ao vivo, uma festa bem legal no prédio, com show do Guilherme Arantes e tudo mais. Desde lá, apenas reprisam a tal festa e programa “My MTV”, onde VJs contam suas histórias na emissora.

Salta aos olhos que ex-VJs, atuais apresentadores da Globo, Band e Record estavam lá na MTV, apresentado a festa e tudo! – Só me resta crer que as outras emissoras foram solidárias em permitir que seus contratados dessem suas imagens aos momentos finais da MTV.

Com a TUPI, a MTV tem em comum o fato de estar transmitindo seu próprio fim.

Com a Globo, também tem algo em comum. É que a MTV está há tempos se despedindo – despedida demorada – isso me faz lembrar a despedida do Tancredo neves, em 1985: o cara morreu e a Globo ficou cinco dias – cinco dias! – passando o funeral do presidente eleito com a musiquinha “Coração de Estudante” ao fundo.

Empresas são como pessoas: vem e vão.

brmvt

 

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Cheguei em casa e liguei a TV na MTV, queria ver como seria seus últimos momentos. Foi assim:

1 – Passava um programa de humor non-sense do Furlan.

2 – Às 23:54 (lá), a Cuca, que foi a VJ que apresentou o primeiro Clip da emissora, apresentou o último clip: “Maracatu Atômico”; era um clip do falecido Chico Science. É bem característico dos anos 90: sem rock, com o regionalismo aflorado. As imagens da Cuca falando eram trocadas rapidamente por imagens suas de 23 anos atrás. Bem legal.

3 –  Terminado o clip, entra a Astrid Fontinelle, a VJ que primeiro anunciou a MTV. Seria a a última a falar, seria ela que “apagaria a luz”, como ela mesma contou. Disse que era com alegria que finalizava a emissora, e desejou sorte à nova MTV. Disse “Inté!” e desapareceu.

4 – Imagens preto e branco de funcionários e VJs, em festa.

5 – Apareceu a logomarca da MTV Brasil, começou a ir para longe, até sumir.

6 – Tela preta.

Dois minuto se passaram.

A operadora, Net, começou a passar um programa de uma tal de “Ideal TV”.

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