Esqueça o estacionamento coberto, a fila em local climatizado, o local para esperar a sessão. Estamos nos anos 80 e no único local onde podem estar os cinemas é… no Centro.

Os cinemas eram: Cine Chaplin (Joaquim Nabuco), o Cine Oscarito (Ramos Ferreira), Cinema Carmen Miranda (Joaquim Sarmento com 24 de Maio), Cine Cantinflas (Joaquim Nabuco), Cine Grande Otelo (Getúlio Vargas); Cine Renato Aragão (10 de Julho), Cinema 2 (ao lado do Teatro Amazonas) e Studio Center (no Edifício Shopping Center).

Logo na primeira metade da década deixariam de existir (ou mudaram nome) Cinema 2 e Veneza. (ok, o Ypiranga e Guarany também, mas eles pertencem aos anos 70 pra trás…)

A tônica dos cinemas do centro era a simplicidade. Enquanto os grandes cinemas da cidade de décadas anteriores (Avenida, Odeon, Ypiranga, Guarany, Éden, Pop) primavam pela grandeza (ao menos física); os cinemas do centro (nos 80’s) eram menores, extremamente simples, sem luxo algum; o máximo que havia era um quadro na ante-sala do cinema com foto do ator-nome-do-cinema e fotos de cenas do filme… só!

De saída preciso lembrar que não estou comparando os antigos com os novos cinemas pois isso seria um erro (comparar elementos de épocas diferentes pelos mesmos parâmetros) e, naquela época, era TUDO o que tínhamos em termos de cinema, então, nem reclamávamos..

Em dia de lançamento, nossos pais nos deixavam na porta, mas quando já estávamos dirigindo, era um típico local do centro: Se para o carro longe, se paga o flanelinha e se torce pra estar tudo em ordem na volta. E, como os cinemas eram poucos, realmente LOTAVA de, a depender do filme, passarmos mais de uma sessão na fila (na estreia do ‘E.T.’ a fila dobrava o quarteirão do cinema!)

Já em frente ao cinema, surgia um camelô com um tabuleiro de bombons, começava a chacoalhar a caixinha de Mentex. Aquele barulho nos persegue ate hoje! O cara vendia o Mentex e ainda usava como chamariz sonoro para os outros bombons que vendia. Você não imagina (os da época, sabem bem) o barulho ensurdecedor que aquelas caixinhas de Mentex faziam ao serem balançadas!

(segundo minha teoria maluca, devia ter algo naquela caixinha de Mentex que ele balançava, pois nunca nos entregava a caixinha que ele tinha na mão; comprávamos o Mentex e ele pegava outra caixinha, do tabuleiro, para nos entregar).

A bilheteria dos cinemas não era balcão: eram janelinhas na parede que nem esses eventos de shows. (A assédio do camelô de tabuleiro começava lá!).

Íamos para a fila que tinha dois momentos: Em filmes de dia, como a fila ficava do lado de fora do prédio, o sol já preparava nosso conforto. A alegria surgia no segundo momento: quando a fila ao menos adentrava o prédio, porque aí já tínhamos abrigo do sol.

Comprada a entrada, passávamos por uma roleta (não era catraca, ainda, era roleta mesmo, que nem de ônibus!). Não se comia pipoca na sessão, porque a pipoca era vendida na rua naqueles carrinhos com saquinhos pequenos (iguais aos de frente de igreja), ou seja: comíamos a pipoca na fila da rua mesmo! Durante o filme a pipoca era o Mentex, aquela enigmática caixinha amarela.

Quanto às poltronas, dois detalhes: não tinham porta-copo! (que nem  os do Amazonas Shopping, que também não tem!); e você tinha que ter duas características legais pra ver bem a tela; uma imutável: precisava ser alto; outra dependente da sorte: não aparecer um alto na sua frente!

O som vinha de caixas de som por detrás das telas (som nas laterais? No way!)

O cine Carmem Miranda foi o primeiro dos cinemas do centro  ter forro anti-acústico, com aquelas esponja de “sonex”; o problema era a saída, local muito perigoso pra se assistir sessão domingo à noite!

Tinha o lanterninha. Era um  “cargo” mesmo! O cara vivia de lanterna na mão procurando vaga pra quem chegava com o filme passando. Tinha uma vantagem, quando algum abigobaldo incomodava por falar muito, ele ia lá ‘pedir’ silêncio. (Esses caras fazem falta nos cinemas atuais!)

A saída gerava aglomeração de quem estava entrando e saindo. Já por volta de 1987 não mais existia sessão contínua. É, tinha essa lance antigamente: Se podia pagar uma sessão e dormir direto no cinema uma sessão após outra.

Ao passarmos pela Jonathas Pedrosa, nos deparamos com um “Cine Éden”… Nos nunca ouvimos sequer esse nome para aquele local. O conheçiamos como Cine Veneza; que foi desativado como cinema ainda nos 80’s, transforou-se em teatro, depois; cheguei a assistir meu primo William tocando teclado na banda do Adelson Santos lá, em 1988/89.

O Carmem Miranda foi o mais bem cuidado interiormente (Joaquim sarmento com 24 de maio, perto do cursinho “Camões”), muito parecido com os futuros cinemas de shopping. Tinha até sonex, aquele revestimento acústico de espuma, nas paredes. Mas seu local de instalação era perigoso, saíamos da sessão noturna atento e olhando em volta. (Sim, o que hoje é regra, naquela época ainda era exceção…)

O último dos cinemas a ser criado com nome de artista foi o Dercy Gonçalves, que ficava no Shopping Grande Circular. Era algo improvisado, onde sequer havia poltrona: os assentos eram aquelas cadeiras de mesa de comer em bar; é, sem nem encosto pra braço, essas mesmo. Assisti “Titanic” (que havia estreado no ‘Chaplin’) lá. O chão era plano! E saímos de lá com torcicolo para conseguirmos ver a tela. Durou nem dois anos, fechou logo.

O último suspiro de público dos cinemas do centro foi em 1999, com a promoção “Eu quero a nota”; onde o público trocava notas fiscais por vale-lazer; e trocavam este por entradas nos cinemas do centro.

Os locais, hoje

 

Cine Chaplin
Cinema Novo
Cine Carmem Miranda
Nem imaginávamos que o nome antigo desse cinema era “Eden”. Na placa que havia na frente constava “Cine Veneza”, depois mudado para “Cine Teatro Veneza” e, por último “Cine Novo Veneza”.
Cinema 2
Cine Grande Otelo
Cine Oscarito (hoje “Premiere”) – Ainda em atividade, especializado em “filmes educativos para adultos”.

Cine Renato Aragão, ainda em atividade [tirei a foto cedo e ainda estava fechado :-( ] ; apesar do nome, também é especializado em "filmes educativos para adultos".
Cine Renato Aragão; ainda em atividade, especializado também em “filmes educativos para adultos”. Tirei a foto muito cedo e ainda estava fechado.
Depois do cinema? A pedida era: Ziza’s, Glacial, Pizzaria (Signo’s, Piu-Bella, Fiorella…)

Detalhe: Nos PRECISÁVAMOS assistir ao filme no cinema, senão, só o veríamos uns dois anos depois quando fosse lançado em Fita VHS nas locadoras (Total Vídeo, Play Vídeo…); ou uns cinco anos para que (alguns) passassem no “Super Cine” da Globo. (Em pensar que hoje, antes do lançamento, há quem já baixe e assista…)

Eu já estava fechando o post quando me deparo, em um última pesquisa, com o blog do… cara que pintava os cartazes dos cinemas!!! Chama-se Marius Bell, e está em plena atividade; tem até foto de placa do Chaplin aqui e aqui.

Atualização: Em 19/08/2012, o jornal D24AM publicou uma reportagem sobre o Marius Bell, aqui: http://www.d24am.com/plus/cinema/personagens-do-cinema-de-manaus-resgatam-historias/66237

comments (10)

  • Marcelo Augusto Reply

    Rapaz … eu me emocionei com esse post … aquela cidade não existe mais!

  • Ainda curti alguns cinemas da lista, e o jornal A Crítica era a pedida pra saber das sessões do dia. O Renato Aragão e o Chaplin eram as escolhas, o último filme visto no Chaplin por mim, foi Godzilla em 1998.
    Tanto o Chaplin quanto o Renato Aragão, únicos que ainda passavam filmes do circuito mundial, coexistiram com os cinemas do AM Shopping numa boa. Quando o Cinemark chegou por aqui em 2001 decretou o fim dos cinemas do centro da cidade.

    • Marco Evangelista Reply

      Exato. Assim como a chegada da televisão decretou o fim dos antigos grandes cinemas; a chegada dos shoppings detonaram os do centro.

  • No Cinema 2 o único filme que vi alí foi “De Volta a Lagoa Azul” em janeiro de 1992. Era um cinema modesto, aconchegante para os padrões da época. Tempos depois alí se instalou a danceteria Mikonos.

  • Em 1999, aos 14 anos, fui assistir “Matrix” no Cine Chaplin; foi a 1a. vez que saí sozinho, sem a minha mãe, para ir ao cinema. Alguns meses depois começou a campanha do Vale-show, e então eu praticamente vivia na Joaquim Nabuco, depois de sair das aulas no Estelita Tapajós. Os cinemas de hoje, com todo o conforto e qualidade que oferecem, não conseguem apagar, de forma alguma, as boas lembranças que guardo das tardes no Centro, quando ficava na fila esperando para pegar a próxima sessão. Eram salas pequenas, modestas, não tinham uma acústica bacana, mas que deixaram saudades, deixaram…

  • me lembro tambem desta epoca boa dos cinemas do centro.” E.T” de steven spielberg (1982), foi o primeiro filme americano que eu vi no cinema, em seguida vi ” o cangaceiro trapalhão” no mesmo ano eu assisti no chaplin. Em 1985 tentei assistir um filme com meu pai e o meu irmão no centro, mas não ficamos ateo fim. Lembro-me da cena em que o menino ficou com a lingua presa na árvore por causa do inverno intenso. Ainda na decada de 80 assiti “over the top” (falcão, o campeão dos campeões entitulado no Brasil) estrelado por sylvester stallone no cine oscarito. em 1988 eu, meu irmão e alguns primos tivemos uma tentativa frustrante de ver “o casamento dos trapalhões” e não conseguimos assisti-lo por falta de espaço. eu ainda apreciei os cinemas do centro ate 2002, com o grande otelo em funcionamento. São estes: Mortal Kombat (1995) no cine Renato Aragão; Arrebantando em Nova York (1996) no cine Chaplin; Risco Máximo 2x (1996) no cine chaplin (este por sua segunda vez assiti por causa de meu primo); Anaconda (1997) no cine Chaplin; Titanic (1998) no cine Chaplin (dinheiro jogado fora pelo filme enfatizar muito o romance bobo entre Kate Winslet e Leonardo Di Caprio); La Vitta Bella (1999) no cine Renato Aragão; e por fim o homem – aranha (2002) no cine Grande Otello. Bons tempos.

  • Lembro de ter assistido predador no cine grande otelo, ” a hora do espanto”, no carmem miranda, e tantos outros….
    Bons tempos de manaus….
    Valeu professor!!!

  • OI Marco !

    Tava revirando a história de cinemas antigos aqui da região norte e me deparei com a sua página ! Poderías me dizer quem administra esses cinemas em funcionamento ? E o Éden que está abandonado, é a prefeitura ou o estado que se responsabiliza por ele ?

    Abs !!

    • Marco Evangelista Reply

      Você fez a pergunta de um milhão de dólares. Não sei e não encontrei essa informação. Sei que o Éden está cheio de famílias morando, não sei se são invasores ou o proprietário transformou em “vila” e alugou tudo.

  • Manoel Targino Ponciano Reply

    Gostei do “filmes educativos para adultos”. Morei em Manaus de 1982 a 2005 e assisti muitos filmes em vários dos cinemas que existiram lá. Especialmente Cine Chaplin meu favorito. Muitas lembranças da época.

comments (10)

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