Pegue seu Crush e Militos Jack’s; vai começar o programa vespertino mais assistido entre crianças e pré-adolescentes da Manaus pré-boi: “Clube do 4”!

A abertura dava o tom do que viria: Uma cena do Tom & Jerry, ao som de algo instrumental e subindo, caracteres de pixels quadradões como vindo de um jogo de Atari, talvez gerados em um CP-500: “A TV A Crítica apresenta” (sobe e sai da tela) “Clube do 4”, com o “4” bem grande e piscando, ocupando o vídeo.

Assisti a um dezena de edições do programa entre 1986 e 1988. Devia ter grande prestígio em audiência, pois tomava pelo menos duas horas de duração (14 às 16 ou 15 às 17?).

A apresentadora, “Tia Cida”, surgia sempre com o cabelo preso; tinha a habilidade de captar a simpatia, nunca demonstrou qualquer irritação com nada, o que indica sua extrema paciência (o programa não tinha assistentes de controle de plateia);

Era gerado no estúdio, depois passou a ser na parte externa. Detalhe: duas semans antes da mudança, surgia propaganda do Bozo (é, do Bozo! – e com o Vandeco Pipoca, um dos três Bozos do programa, o mais legal deles, que surgia no terço final das edições da atração, no SBT) em Manaus anunciando a mudança para “O Cirquinho do ‘Clube do 4’); dizia ele que estaria presente na inauguração de tal cirquinho – não sei se veio mesmo. Li que aos sábados o programa era ao vivo da Danceteria Brilho (funcionava onde hoje é o Amazonas Shopping, estive lá assistindo ao Show dos Trapalhões, certa vez), mas nunca assisti alguma edição do programa gerado lá.

O programa tinha o formato standard “brincadeira+desenho”. As brincadeiras mais frequentes era a da cadeira e uma lá em que uns ficavam andando e quando parasse a música tinha que formar par, permeada por outra em que se precisava levantar a um comando.  Os desenhos eram Tom&Jerry, Pica-Pau e outros da King Features Syndicate.

Algo de bom no programa: não tinha lance de mandar beijo pra ninguém; definitimante o “Pra minha mãe, pro meu pai e pra você” dos participantes não colava lá: a própria Tia Cida o fazia!

A piada maldosa da época era que a diferença entre a Xuxa, Angélica e a Tia Cida era que a Xuxa vai de helicóptero (em outra versão iria de espaçonave), a Angélica vai de taxi e a Tia Cida de Interbairros.

As apresentações talentosas era um show à parte, com imitadores e dubladores do Menudo, Dominó, Madonna, Cindy Laupper (a música dos Goonies), Metrô, Kid Abelha, Magazine. Ao fim da atração a Tia Cida ia lá entrevistar, assisti certa vez a: “- De onde vocês são? – Do Morro da Liberdade. – Puxa, um beijo e muito carinho a todos vocês do Morro da Liberdade!”. As meninas da plateia não deixavam barato e enchiam os integrantes de beijos.

Umas “bandas” levavam réplicas de instrumentos mas uma ou outra levava guitarras dos veras mesmo. Em um dos que assisti, vi uma mesma guitarra sendo usada em pelo menos duas bandas seguidas ali.

Calouros surgiam, geralmente com números dançantes de break e funk.

A imagem era um caso à parte: muito precária. Desbotada e com ppouca definição mesmo para a época (lendo a Wikipédia, vi que o equipamento da emissora era defasado mesmo, está escrito lá), em alguns momentos quase beirava o preto e branco de tão tosca; era borrada, os rostos em close quase eram só sombra. Eu achava que fosse minha televisão Sanyo, mas nos desenhos a imagem ficava melhorzinha (ainda assim, ruim), o que denunciava que era a qualidade das captações daquelas câmeras mesmo (talvez ainda com tudo de imagem Saticom dos anos 70, eu acho…).

Uma outra situação curiosa: em algum momento não havia captação do som da plateia, só sabíamos que havia aplauso porque víamos as palmas, e o som do microfone variava muito em volume, sem utilização de compressor de áudio, havia picos que esgaçavam nos auto-falantes das TVs.

Eu achava que era o televisor. Eu tinha uma TV Sanyo, comprada em 1980, troquei naquele 1986 por uma TV estéreo da Philco-Hitachi comprada na Mesbla: todos os programas ficaram com ótimas imagens, exceto…

Os enquadramentos também era históricos: lembro que enquanto era gerado no estúdio, se via a imagem vindo de duas câmeras (uma fazia o “over” e o “pan”, a outra, o “close” e o “fade”), mas a câmera da panorâmica tinha uma peculiaridade: parecia estar em plano bem mais alto que as pessoas, de forma que parecia que as víamos meio que de cima pra baixo, com a peculiaridade, claro de que o local era pequeno, o que deixava aquilo estranho. Meu palpite é que realmente devia haver uma plataforma para o tripé, acho que para que ninguém da plateia batesse na câmera. Minha teoria, penso, se confirma porque, na foto em que obtive do programa, postada aqui e já no Cirquinho, pode-se notar que a lenta ainda está ligeiramente mais alta que o palco (bem menos do que na versão do estúdio!).

Percebo que foi um grande vacilo da emissora não ter tido um disco gravado com músicas compostas para o programa, (não existiam, a trilha sonora infantil do programa era Mara e Symony; acho que tentavam evitar a Xuxa por ser da restransmissora concorrente) teria vendido bastante, certamente.

Estranhamente, você não encontrará nenhuma testemunha causal da história; é que por algum motivo, todos os que lá se apresentaram, hoje negam veementemente que o fizeram, não entendo o motivo….

O mérito do programa era que, ainda que com tais padrões de qualidades, a audiência devia ser altíssima, tanto que durou, como li, de 84 a 89. A apresentadora, digam o que disserem, mas era adorada pelos participantes e obedeciam ao comando do que dissesse (no cirquinho parece que tinha uma assistente de palco, mas que ia de roupa comum, por isso não tenho certeza se era assistente ou se “estava lá e resolveu ajudar”).

Ainda que aparentemente de baixo orçamento, devia gerar grande resultado para a emissora, e nisso está a genialidade do criador, diretor, apresentadora e produtores da atração: fazer algo simples ser um sucesso!

Outro mérito da atração é que se permitiu ao Manauense se mostrar. Todos nós tínhamos algum colega ou conhecíamos alguém que esteve no programa ou assistia àquilo ao vivo lá – trazendo a sensação de que não era só do Sudeste que surgiam programas infantis, aqui tínhamos os nossos! (o outro era o da “Turma do Tipiti, do Canal 2). Tia Cida era nossa Xuxa (não era a “Xuxa do Amazonas”, pois tal título caberia, posteriormente, a Tatiane Xavier, a “Xuxa do Amazonas”, tenho uma foto com ela tirada aqui em casa, um dia posto).

Ah, em uma das vezes que assisti, não teve sequer despedida: no meio da atração já cortaram pro letreiro final, já entrando o outro programa da grade – enfim, era esse monte de coisa que marcou tanto que até hoje é lembrado, gerando a pergunta que não quer calar: Qual será o paradeiro da Tia Cida?

Essa foi a única imagem do programa que encontrei aqui na internet (do Blog “Manaus de Antigamente”). Dizem que na TV A crítica tem outras, um dia checo, pois também tenho curiosidade. A caloura imita a Madonna, claro. Nota-se que o lugar, mesmo no Cirquinho, era pequeno. O teto era de plástico translúcido de forma que a luz natural acabava ajudando na iluminação do palco, engenhoso! Aparentemente é um programa de comemoração de aniversário da Tia Cida. Os balões eram frequentes mesmo quando não havia festas, no programa. Não vejo claramente a Tia Cida na foto, seria aquela que está em segundo plano, logo na entrada do palco?

comments (8)

  • Saudade! Morava em Manaus e me apresentava várias vezes na semana no programa da tia Cida. Fazia apresentação em caminhão , propaganda do guaraná Real. Bons tempos! Pena que perdi todo material que tinha gravado. Naquele tempo , era o máximo!

  • caracas essa veio do fundo do bau, lembrei de quando ums amigos meus e meu primo dançavam, era um grupo de break e competiam cm outros grupos, nome do grupo era egipsonlase e o outro era piramedi, eu curtia muito quando eles dançavam era demais os passos de break, saudades daquele tempo.

  • Robert Barbosa Reply

    Me apresentei em 86 com um grupo de amigos do Japiim, denominado Menudos do Japiim. Tinha 11 anos de idade. Realmente faltam registros mais óbvios desta passagem do programa o qual foi um marco da juventude festeira e da adolescência efusiva da ocasião. Sempre conheço alguém que insinua, assim como eu de que esteve lá. Acho que só quem viveu realmente é que pode contribuir com relatos testemunhais…

  • Nossa gente até que enfim encontrei algo sobre o assunto já estou a décadas querendo saber mais a respeito, isso ficou gravado na minha memória, e sempre me lembrava desse fato. Tem tanta coisa legal que eu gostaria de poder ver mais dessa época. Eu sempre estava participando do show de calouros, minha mãe me levava sempre. Eu fazia várias imitações, inclusive a que mais me marcou foi uma música que dizia o seguinte… tem que passar tal quinhões, tem que passar tal quinhões passa tal quinhões no bumbum desse nene….kkkkk nossa demais mesmo lembrar disso, é no final da apresentação a gente ganhava um refrigerante e um militos aí a gente escolhia podia ser o de queijo ou o colorido. Obrigada por vc ter feito esse. Breve artigo.e que um dia possamos ver um vídeo completo. Obrigada muito obrigada.

    • Gente corrigindo a palavra certa e talquinho, meu computador as vezes é louco escreve errado.

      • Marco Evangelista Reply

        Eu lembro da música do “talquinho”. O refrão era “Huéin huén, huén huéinn huêinnnn….” – È uma música do Gugu

  • LUIZ EDUARDO FONTES Reply

    EU ESTUDAVA COM O PESSOAL DO GRUPO THUNDERCATS (SILVANO, PETELECO E FORMIGA) KKK QUE DUBLAVAM A BANDA ULTRAJE A RIGOR COM UMAS GUITARRAS DE MADEIRA ….NA VERDADE O CLUBE DO 4 INICIOU EM 1985 LEMBRO PORQUE ESTUDAVA A TARDE E CHEGAVA DA AULA E JÁ IA ASSISTIR DIRETO. SEMPRE GOSTEI MESMO DE ROCK E MEUS AMIGOS A MAIORIA FAZIA PARTE DE GRUPOS QUE DUBLAVAM AS BOY BANDS DA ÉPOCA. HOJE EM DIA NENHUM DELES LEMBRA DESSA ÉPOCA. (POR QUE SERÁ ?) KKK MAS SÃO BOAS LEMBRANÇAS.

  • Participei durante praticamente 2 anos de um grupo chamado Bambonino, que fazia cover do Menudo. Fazia especificamente o Rick Martin. Lembro das apresentações, do “camarim” que ficava por detrás do cenário, que era quente pra danar. A bagunça dentro do camarim, esperando para as apresentações: meninas se maquiando caprichosamente, meninos ensaiando os passos, aquela gritaria das fãs do lado de fora do camarim, aquela ansiedade de entrar no ar para toda a cidade de Manaus, ao vivo, sem cortes. eu tinha aproximadamente 11 para 12 anos de idade. A Tia Cida, cujo nome era Maria Aparecida Moreira Marques, era praticamente uma mãe para todos que ali estavam. Realmente ela não se irritava com nada, sempre muito alegre e sorridente, gostava do que fazia na frente das câmeras e era exatanmente a mesma pessoa por trás das câmeras, fora do ar. Ela morava com a mãe e com o irmão chamado Tony, na Rua 17 do Conjunto Hileía. Ela era de Fortaleza senão me falhe a memória. Era evangélica e frequentava uma igreja batista no bairro. O programa estreou em 1984 e inicialmente era transmitido de dentro dos estúdios da TV A Crítica, porém à medida que o programa foi crescendo em audiencia e as crianças vinham de todos os bairros para assistir ao vivo o programa foi construido em 1986 o Circo do Clube do 4, nos fundos da TV A Crítica, que garantiu um espaço maior tanto para receber as crianças quanto os grupos que íam se apresentar! Foi a primeira vez que tive a verdadeira noção de que televisão é tudo uma grande fábrica de fantasias. Por trás das câmeras o programa era um caos, não sei como ela conseguia comandar tudo aquilo! Toda Manaus assistia o programa, o que garantia retorno para a emissora em audiência e tinha espaço cativo na programação do SBT na época. Cheguei a visitar a parte técnica da TV A Crítica e fiquei fascinado de como existe toda uma tecnologia e um pessoal especializado para por a emissora no ar! Acho que o programa saiu do ar em 1989 e depois não se ouviu mais falar da Tia Cida. Tentaram uma entrevista com ela no programa Linha de Frente em 2006, porém o apresentador Roberto Mendez não conseguiu localiza-la. Uma pena! Faz parte da história de muita gente que passou por lá, seja como espectador, seja como artista por um dia, seja como telespectador.

comments (8)

Your email address will not be published.

You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>