Sempre tive problemas com a opção de tocar “covers”.

“Cover” é música de outro artista, basicamente. Existem bandas especializadas em covers. Algumas fazem cover de uma banda apenas; outras, a maioria, ensaia e toca vários covers de várias bandas.

Meu lance sempre foi música própria, entrar na indústria fonográfica; ter material para vender, mostrar, ganhar direitos autorais, imprimir uma marca, gerar e ter uma história própria.

O problema é que, em Manaus, não encontrei (ainda!) quem partilhasse plenamente assim comigo, só escuto “aqui em Manaus essas coisas não funcionam”.

Só duas ou três pessoas com quem toquei consideravam razoavelmente factíveis essa minha ideia maluca, dois na Ala Ralé e um na Nuvem 9. Fora esses, a empolgação de todos os outros (acho que daí partiu meu desânimo passageiro em continuar tocando em bandas) era tocar cover, cover, ser o melhor cover possível; uns dois ou três até compunham (bem até!) mas quase que só queriam tocar covers… Ah, saco!

 

E, pior, esses músicos de covers são exímios músicos! absolutamente ótimos! O que aumenta o desperdício de talento, penso.

Hoje li no FaceBook que quem toca cover é “coveiro”. Pois bem, em Manaus, afirmo que os melhores instrumentistas que eu conheço são “coveiros”. Meus melhores amigos na música são “coveiros”.

 

Tocar cover é como tomar remédio pra dormir: duas facilidades oferecidas acabam levando a um vício. Senão, vejamos:

 

  • Ter atenção tocando cover é fácil, não se precisa criar música, mas sim copiar bem algo já pensado, calculado, elaborado, tem coisa mais fácil? A limitação é apenas de treino.
  • As covers já são sucesso (essas são as mais escolhidas), assim, é caminho fácil para uma banda ser logo conhecida e amada: tocando o que todos já gostam.

 

São vantagens bem convincentes, para quem apenas tocar para ser visto ou se divertir.

 

E aos audaciosos que tem a cara e coragem de quererem tocar música própria? Restam os encargos e perigos:

 

  • Explicar aos membros da banca os fraseados da música composta, escrever as partituras, cifras, andamentos, letras; trabalho extenuante, é verdade;
  • Convencer aos outros membros da banda que a música é boa, legal de tocar, e tem possibilidade de “pegar” – ou ser convencido do contrário e mudar a criação;
  • Montar design do som a partir do zero e fazer aquela barulheira ficar ao menos perto do que foi imaginado quando a música foi composta;
  • Depois de tudo ensaiado, ter a cara e a coragem de tocar essa música para pessoas que nunca ouviram e que, sabiamente, vai gerar um anticlímax  no show (ninguém dança ou agita com música que não conhece, não precisam gostar mas, ao menos, conhecer);

 

Vou ficar por aqui nas desvantagens, e não vou sequer falar no trabalho de produzir algo próprio quanto à mídia e divulgação etc (isso fica para outro post).

 

É, é muito trabalho, realmente – quem se meteria a doido em uma caminhada dessa? ´Melhor ficar com a “Sweet child o’mine”, que todo mundo conhece, tem ótimos solos e é empolgante.´

Não, tocar covers, definitivamente, não era pra mim.

 

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