É aclamado como o primeiro disco de “Fusion” – gênero que, penso, o grande expoente foi Frank Zappa.

Já o havia escutado rapidamente anos atrás, agora pedi o CD físico e fiquei estudando-o, depois de escutar no quarto, quarto, mesa, sala de professores… penso estar habilitado a escrever algo sobre ele. É para ser escutado quando se está no clima, de mente aberta a aceitar o incomum, senão, será ódio já no quinto minuto. Há de se ser capaz de reconhecer a genialidade, sob pena de acharmos que Miles só mandou gravar uma “farra” inconsequente no estúdio.

É um disco de 1970, em uma época onde havia terminado o rock paz & amor e se iniciava o rock de arena, a década das bandas grandiosas, que lotavam estádios e tinham aviões, fazendo a vendagem dos Beatles serem superadas.
Nesse ínterim ainda existia um seleto grupo que não apenas escuta ou curte – mas degusta e sente – música. Para essas pessoas foi gravado o Bitches Brew – Tá bom, nem sei se isso foi real, de repente o Miles só queria fazer mais um disco, ou quis fazer um disco pensando nele próprio, apenas – e saiu o Bitches Brew.

Não se pode estar em consciência normal – eixo X/Y – para curtir esse disco, simplesmente porque ele não é um disco normal – a lógico da música está toda distorcida.
Quem diz que alguns discos de Chico Buarque ou Edu Lobo são difíceis de se ouvir, é porque não conhece Bitches Brew, o disco já diz logo pra você “Eu sou para poucos”, de forma que você só escuta se quiser mesmo! Eu escutei porque esse disco faz parte da história, já que nele foram fundadas as bases do que se viria a chamar de Fusion” – Fusão de jazz com Rock
Qualquer lista de discos importantes citam o “Bitches Brew”, de forma que o mínimo que alguém que queira se intitular “Audiófilo” é conhecer essa obra, gostando dela ou não – é algo como um ritual de passagem, assim como para um roqueiro conhecer o “Dark Side Of the Moon”.

A entrada de “Pharao´s Dance” já nos deixa curioso: começa só bateria e a cada cinco segundos entra um instrumento. Parece Jazz, essa primeira música, só que parece embalado a LSD ou algo do tipo, pois é psicodelia pura. No quinto minuto desembestam a tocar “com os caramba” e já nem parece a mesma música.

A música-título, segunda do disco, começa na mesma linha bem calma, parece até Pink Floyd arrastadão, depois começa a revolução diabólica sonora com um plus: o trompete de Miles toca uma frase que gruda na mente, bem poderia ser a trilha de um filme de ação, e surge uma guitarra já nos dizendo que aquilo não é “só” jazz… Tem uns sussurros de uma palavra que não sei se é da música mesmo ou se foi algo dito no estúdio que acabou ficando na fita.

Ao se ouvir a “Spanish Key” se entende de vez o que é “fusion’: temos certeza que, pelo seu início, será um rockão, até o ritmo batido está lá, depois desanda para os improvisos, mas a batida ritmada continua; e no quarto minuto da música surge uma guitarra, fazendo uns licks de rock mesmo – inclusive com o som meio distorcido.

Surge “John McLaughlin“, uma música rapidinha (em comparação às outras) onde quem brilha é a guitarra e piano na cozinha (baixo e bateria – bem, na verdade mais bateria) – Não tem o trompete o Miles aqui, ao menos não que possa ser ouvido em primeiro plano; tá, tem sim, mas é um ronco bem grave e baixinho do meio para o fim.

Vem “Miles Runs the Voodoo Down” que é outra doideira igual a primeira música do disco – tão maluca que se posse tocada de trás pra frente nem notaríamos a diferença. No nono minuto temos a impressão que o pianista e tecladista (ou o que seja aquele instrumento, que me parece ser de teclas) estava pegando choque ou possuído pelo capeta, tamanha a rapidez com que começou a tocar – Aí volta a ficar calmo e entra o trompete, climão, véi!

O disco original termina com “Sanctuary“. Calminha, bem fechamento de disco mesmo, quase um lamento, ou estavam muito cansados e alguém gritou “Dá pra gravar mais uma!”. O trompete granha alma aqui, quase que como uma voz humana. O início tem a bateria e baixo bem rápidos mesmo sob a lentidão do trompete, depois tudo acalma. Terminando apoteoticamente com todos no talo em altura, caindo nos últimos 5 segundos só para o trompete…
Em algum momento nem parece o mesmo Miles Davis de A Kind Of Blue – a assinatura de embocadura no trompete está lá, mas o estilo é totalmente outro.

Lá se vão 46 anos, e esse disco ainda é um desafio. Daqueles que a cada audição… é uma nova audição.

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