Já fui rato-de-cinema, coisa de assistir 3 filmes na semana, há uns meses passei a ir apenas episodicamente ao cinema – tal distanciamento me deixa escrever sobre algo que sempre idealizei: o cinema brasileiro. Escrevo com base no que sei, percebo e penso.

Início até os anos 50

Diferentemente da fotografia, onde nosso país foi vanguardista de produção – até porque Dom Pedro II era um entusiasta de novas tecnologias, o cinema não chegou tão imediatamente aqui.

Bem, também não se pode dizer que o Brasil entrou tarde na era dos quadros em movimento, o DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda) de Getúlio Vargas já dominava a linguagem cinematográfica lá pelos anos 30.
Nunca tivemos uma grande cine-indústria mas, até início dos anos 50, nossa cine-dramaturgia não perdia muito para a Europa e América do Norte. Empresas como Vera Cruz e Cinédia eram verdadeiro microcosmo de Hollywood.
A grande virada ocorreu quando a televisão surgia no cenário norte-americano e o cinema de lá, para não perder espaço ao tubo de cinescópio, precisou se reinventar – só teve um jeito: as superproduções e, nisso, o Brasil não acompanhou.
Desde lá passou a existir “Cinema” e “Cinema Nacional”, sempre com conotação menor a esse último.

Anos 60
Pouco existiu de cine brasilis nos anos 60 digno de nota – para salvar a falta de recursos técnicos, o que havia de melhor em película por aqui era melhor enquadrado como “Cinema de Arte”, que aí centrava-se o valor mais no roteiro e menos na imagem.

Anos 70
A “revolução” do cinema nacional ocorreu nos anos 70, em três frentes:
1 – Surgimento de uma escola de filmes que hoje chamaríamos de “caseiro” ou “amador”, mas que na época era chamado de “Cinema Novo” (uma câmera na mão e uma ideia na cabeça). Comparado ao que se produzia antes, ocorreu uma explosão de filmes, que no início da década de 200 seria chamados de “trash“, mas que hoje são “cult“;
2 – Grandes produções, bancadas por indústrias televisivas, isolada ou associadas, tendo redes de televisão como background para fornecimento de elenco. Grandes atores se desdobravam em teatro-cinema-televisão;
3 – As pornochanchadas, que era filmes, quanto à produção, “tipo-B” ou “trash” como os do primeiro grupo, mas que ascendia fazendo apelo aos básicos instintos do público;

Anos 80
Nos anos 80, ao menos até o o por-do-sol da segunda metade, lá por 87/88, viu o auge da primeira onda do cinema nacional. Iniciada nos anos 70, filmes brasileiros atingiam bilheterias antes inimagináveis. Produções como “Eu te amo”, “Eu sei que vou te amar”, “A menina do lado”, “Bye bye Brasil”, “A dama do lotação”, além dos filmes dos Trapalhões (cujo auge cinematográfico foi o “Os Três Mosqueteiros Trapalhões” e que o papai aqui assistiu na semana de estreia, no ´Cinema Dois´ em Manaus).

Anos 90
Os anos 90 foram deprimentes para o cinema nacional, pouca coisa surgiu e o que surgia era ruim, parecendo ter sido obra alimentadora de egos de diretores e roteiristas; era como se pensassem “Já acabou o cinema nacional mesmo, vamos rodar essa porcaria aqui só pra ostentarmos que somos cineastas”. As obras daquela época são arrastadas, vazias, até com boa intenção, mas patéticas. Um dia descubro se aquelas pessoas que faziam cinema naquela época eram heróis ou vilões, afinal, a situação econômica do país naquela época também estava imprestável…

Anos 2000 a agora

A retomada surgia na década de 2000 e, salvo um quinto das produções< variavam entre o humor e o crime roteirizado.
Mas um problema ocorria com os filmes de comédia – e continuam ocorrendo, em alguns: a linguagem dos mesmos é puramente televisiva. Os cenários, diálogos e enquadramentos nos fazem pensar que estamos assistindo a um programa de TV com imagem de cinema, nada além. A essa ainda prisão de linguagem da comédia, se apõe o cinema-realidade, esse está deslanchando, e qualquer filme brasileiro sobre essa temática já, está, penso, nos níveis dos melhores do mundo.
Em algo o cine-BR é melhor do que os estrangeiros: ao menos aqui não há excesso de efeitos visuais e especiais, e tais efeitos são usados para servir ao roteiro, ao contrário de muitos de lá, que parecem escritos para justificar a demonstração do que os computadores e designers são capazes.
Fico pensando as vezes se temos vocação para cinema porque, quanto a novelas, somos imbatíveis; mas não tenho dúvida que com os recursos de que já dispomos, um bom roteiro com filmagens aqui mesmo já pode desbancar em público qualquer – qualquer – produção importada.

cnbrs
Típica exibição de um filme brasileiro, sqn.

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