Em 10 de abril de 2015, a Professora Junnia Pitrowsky, em festa de seu aniversário de 71 anos, proferiu o seguinte discurso. Eu gravei o video e o transcrevi – após lê-lo, acho-o um legado para a nossa geração:

“Eu acredito em sonhos.

Isso aqui é a realização de um sonho, porque eu estou vendo um bebê entrar no colo da uma mãe, de fralda; hoje ele está aqui, é um homem, e eu sou capaz, se eu fizer um esforço, de lembrar de cada momento dessa criança. Não o faço porque me traz uma emoção muito forte, e às vezes a gente quer voltar, isso não é aconselhável, temos que andar pra frente, o passado já foi escrito.

Estou em Manaus há dois anos, meu sonho era morar lá no Sul, porque minha família toda é de lá. Quando minha mãe casou, teve que tirar o Pitrowsky do nome dela, por causa da guerra, e quando eu completei 18 anos, resolvi colocar no  meu nome e na minha vida o nome o “Pitrowsky”. Eu e a Gláucia, a Gláucia fez a clínica e eu a escola.

Então era uma forma de nós sonharmos. Às vezes sonhamos e ficamos no sonho, às vezes sonhamos e tornamos completos. Isso e uma advertência: devemos sonhar e realizar. Se eu não tivesse feito, que podia contar hoje de minha vida?

O que fica estabelecido como uma experiência como eu tive é que você aprende a amar sem limites. Amar pessoas que você nunca viu… como filhos, como filhos! Isso é uma coisa muito forte. E às vezes tinha mãe que eu dizia “Você não vai fazer isso com ele, você não tem esse direito!  – como eu podia dizer uma coisa dessa? “Você não vai levar! Você vem buscar daqui a uma hora mas agora você não vai levar!” – E ela não levava! Ela obedecia!

Eu mandava e aquilo era obedecido. Porque era a certeza do que eu estava dizendo, em prol do filho dela, não era do meu filho. E eu não tinha filhos, depois eu adotei dois, muito tempo depois.

Mas para as pessoas que passaram aqui eu fazia questão de ter um significado, de que a Escola tivesse um significado forte para as pessoas, e eu fiz um plano: eu só vou ficar tanto tempo na área. Quando eu terminei a escola, foi um plano, eu nem tinha do que viver. Não interessa, mas o plano foi esse.

Hoje eu passo por ali e não tem uma área, foi tudo vendido – história de herança – restou só uma sala de aula. Mas aquilo não entra na emoção mais, a emoção era meus alunos. Depois adotei duas crianças.

Eu estou fazendo 71 anos e digo a vocês que estou em Manaus há uns dois anos. Estou morando em um quarto, feliz, não preciso nem ar condicionado, nem nada, com janela para o nascente.

E hoje estamos aqui em uma alegria forte por causa da afetividade. Sem afetividade não vale a pena viver, não existe graça pra nada, pessoa sem afetividade é chata, agente, pra não ser chata, começamos a conquistar pela afetividade.

O importante é nosso íntimo estar em paz. Paz é o princípio de toda coisa positiva.

Então eu estou alegre, e estou achando todo mundo tão novo. Minha cabeça está branca por causa de família, mas estamos todos novos.

Eu separei os pôsters das turmas, não os trouxe por causa da mudança. Fico emocionada quando vejo os quadrinhos, de todas as turmas, fazíamos todos os anos. A fotografia é uma coisa que você recorda do passado mas sem aquela dor.

Alguém está tirando fotos daqui, agora tem “face”, tem “foice”, de “fuice”, e isso é importante para alargar essa questão da afetividade.

Existe um versículo que diz que “sem fé é impossível agradar a Deus”, e eu digo: sem amor é impossível a gente fazer isso – ninguém estaria aqui se não houvesse o amor.

Então meus filhos, minhas filhas, meus amigos, tinha uns pais que tinham dificuldade de deixar os filhos lá, os homens principalmente, não gostavam de acreditar que deixar os filhos na areia seria bom. Nós deixávamos as crianças sentadas em táboas, é, tinham umas taboinhas, por causa da larvas migras, e para isso tinha a Thiabena, a pomada; tudo para não ferirmos o processo de educação.

Tudo o que era possível tirar para chegarmos ao nosso ponto, foi feito.

Me considero uma pessoa alegre porque consegui dar o meu recado. E vejo os meus alunos assim: o procedimento deles é diferente, algo dentro deles é muito forte, pois era uma Escola que tinha exigência mas tinham liberdade – tinham crianças que comiam areia… as mães, excessivamente rígidas, às vezes tiravam da Escola, iam lá pelas outra… depois voltavam.

E aquela mangueira e aqueles jambos, aqueles abius… tinham de tudo… Era uma coisa, porque só um grupo assim que pode trocar essas situações, e agente lembra parecendo que vai ficar mais firme do que estava. Vejo que valeu a pena!

Voltar pra Manaus pra mim foi uma coisa difícil, mas permaneci pela questão afetiva. Eu queria ter trazido as fotos para mostrar como era a carinha de vocês debaixo da mangueira e, para mim, é incrível: não mudou nada!

Nós temos assim uma infinidade de situações que dá para dizer: valeu a pena e vai continuar valendo, porque uma pessoa inteligente tem que viver de alegria, se não for de alegria então não é inteligência, que inteligência seria essa que chora o dia inteiro?

Eu tive câncer, perdi muitas coisas, perdi meu pai, aquele educador, criou a lei da psicologia, é o psicólogo “001”, deputado amazonense. Eu ia fazer psicologia, mas preferi entrar em outra área, mas as oportunidades continuam surgindo, e a oportunidade que eu sugiro a vocês é investir na afetividade.

A afetividade enriquece nossas vidas, nos faz perdoar, nos faz amar, nos faz descobrir coisas novas, esconder algumas coisas por um tempo depois vai lá olha de novo, ter paciência, tolerâncias porque são atributos de pessoas que veem na educação e na espiritualidade a mudança do Homem, da humanidade.

Eu quero agradecer a oportunidade porque ano passado eu fiquei um pouco isolada porque precisava estudar um pouco a situação. Estou tomando conta de uma Fundação, uma das mais antigas do Brasil, criada por meu pai.

Nosso sonho é fazer um trabalho filantrópico muito grande, a Fundação foi criada em 1951. Que nós possamos semear coisas que alguém venha a colher e tenha prazer nisso.

Eu assim quero abençoar a vida de cada um de vocês , dentro da sua forma de fé e que esse dia seja marcante não por uma festa de aniversário, mas pelo encontro número de pessoas que levam em consideração o que é o amor, a amizade, a fidelidade e a graça do Senhor sobre nós. Então eu abençoo cada um em nome do Senhor, e que tenham dias assim de muita reflexão, qualidade, não de vida material somente, mas que essas crianças possam contar histórias assim como nós estamos contando, que nos faz bem fazer isso.

Muito obrigada.”

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Junnia Pitowsky é fundadora e diretora da Escola Pitrowsky, que funcionou de 1967 a 2002, em Manaus – AM, no bairro de Cachoeirinha, Estudei lá entre 1977 e 1979, tenho um post sobre o antigo prédio, AQUI.

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