Cheguei ao centro da cidade umas nove. Já sabia que o horário não contribuiria para maior resultado do evento: talvez se fosse de tarde, a adesão seria maior.

A primeira imagem era de desolação: muitas ruas do centro fechadas pela polícioa, mas ninguém por lá. Fui até a Praça do Congresso (fiquei feliz em estar na praça onde, no meu livro “Nivi”, é um dos palcos da Revolução Brasileira) e lá estava a aglomeração – pequena. Um carro de som bradava palavras de ordem e, pelo que vi em volta, algo com no máximo três mil pessoas, a maioria na Eduardo Ribeiro.

Tudo fazia crer que seria só aquilo mesmo. Mas piorou: começou a chover, e chuva engrossou. Formou-se uma clareira na rua, e logo os que estavam em volta se conformaram em se molhar a reocuparam o asfalto.

Percebi que cometi um grave erro: estava com uma camisa azul onde, no centro, havia a estampa “1974” em… vermelho! Só percebi isso quando uma manifestante olhou pra mim e mandou: “O que é esse vermelho aí? É do PT é?” – caramba! Se era essa a imagem que eu estava passando, a manifestação pra mim acabou antes de começar – sei lá que reação eu poderia causar por lá…

Fui andando de volta para o carro, quando tive a ideia de dobrar a camisa, assim encobria as grandes letras vermelhas, funcionou no começo, mas ficava caindo.

Olhei para o lado e o grupo começava a se movimentar, fui lá andar um pouco, quando encontrei meu primão querido Ronaldo – “Cara, estou com essa blusa enrolada porque tem um “1974” vermelho!” – Ele, que estava usando uma bandeira do Brasil como capa, apressou-se em tirá-la: “Tá aqui primo! Usea! Se abraçe nessa bandeira!” – Yesssss! A Passeata estava salva!

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Amarrei a bandeira em volta de mim e voltei a estar protegido! – De devo essa Ronaldo!!!

Era inevitável comparar aquilo com 2013 [Clique AQUI e lembre como foi aquela passeata]. Tudo bem menor, talvez porque perceberam que há dois anos as pessoas colocariam no voto todo a indignação que estava nas ruas – vimos que não foi assim.

Ainda no final da Getúlio Vargas houve a primeira parada, e ninguém sabia porque. Uns diziam que o carro de som parara na frente da casa de alguma autoridade, outros diziam que a passeata seria até ali, outros afirmavam que era para a polícia reordenar o trânsito para a continuidade da passeata.

A chuva molhou um pouco a máquina e eu começava a duvidar que as fotos estavam sendo tiradas, o visor traseiro estava escuro. Vendo as fotos agora, percebo que as imagens ficaram escurecidas mesmo – dane-se.

Fui seguindo o grupo e algo estranho aconteceu: surgiu gente não sei de onde e em dez minutos aquele grupinho que eu havia visto quando cheguei se virara e alguns milhares mesmo! No relanee me parecei pelo menos umas sete mil pessoas! Descemos pela Getúlio.

Ao adentrarmos ao viaduto do Boulevard um momento de tensão: Na saída do túnel do viaduto havia um paredão de policiais, motos e carros de polícia. A primeira impressão é que alguém dera ordem de não passar dali, mas os manifestantes não estávamos muito aí e fomos em frente.

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Qual nada, os “puliça” logo ajudaram foi é abrir caminho por entre os carros, pararam o trânsito e deixaram o caminho livre para a passeata. Aliás, o eco dos gritos naquele viaduto foi ensurdecedor, ainda posso escutar “Fora Dilma!” até agora.

O movimento parou na esquina da Pará com a Djalma. Os manifestatem queria ir até a Arena Amazonia, mas a organização parou o carro de som lá e lá ficou. Tenho certeza que se seguissem adiante, o povo acompanharia, aliás, estava claro que a passeata só aumentava em tamanho à medida que avançava pelas ruas.

Helicópero de polícia, drone e imprensa ficavam em volta. Pude ver alguns representantes da OAB, da Maçonaria, de alguns ONGs. Não vi qualquer político com cargo por lá e absolutamente nenhum partido foi mencionado por nenhum dos dois carros de som, só p PT e ainda assim para ser o alvo das flechas.

Listas colhendo assinaturas a favor do impeachment circulavam, e houve até fila para assinarem em uma delas.

Algo que os PTólatras e Dilmaníacos não vão gostar: lá pelas tantas pegaram uma bandeira do PT e começaram a rasgar, jogada no chão, dezenas de pessoas pisavam e pulavam sobre ela.

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Nunca havia visto tanto policial junto, nem na manifestação de 2013, parecia que estavam mesmo com medo que houvesse guerra civil ou algo parecido. Pelo sorriso dos policiais, acho que eles estavam lá parados mas espiritualmente conosco protestando. Só uma – UMA policial me chamou a atenção: uma policial branca, cabelos meios ruivos ou acho, muito séria, cara de poucos amigos mesmo, e que em enhum momento soltou sua arma, manteve o dedo grudado no gatilho durante todo o tempo em que acompanhou os manifestantes – acho que não era arma de projétil, mas de bala de borracha ou algo parecido – por sorte não precisamos descobrir.

Havia dois carros de som, um alto, como um trio elétrico, e um menor. Os dois eram plenamente audíveis. NO maior pessoas se revezavam com discursos, ao final foi lido o manifesto oficial, bem coerente, o único deslize é quando se posicionaram contra a existência de um Ministério da Defesa – bem, acho que eram contra o atual ocupante do Ministério. Todas as vezes que o palestrante falava a palavra “Impeachment” os manifestantes gritavam e aplaudiam.

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As frases de ordem eram:

“Êêêê… o PT rouboooou… o PT rouboooou… o PT roubooooou…”

“A nossa bandeira jamais será vermelha!”

Sempre que passávamos sob algum prédio com ocupante, entoávamos: “Vem pra rua! Vem pra rua!” E se os ocupantes saíssem da sacada eram aplaudidos – entendíamos que eles estavam descendo.

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As músicas emocionantes foram o Hino Nacional, entoado duas vezes: quando passamos sob o viaduto do Boulevard e na concentração final. Outras músicas, essas tocadas a partir do som dos carros foram “Pais e filhos” do Legião Urbana, “Pra não dizer que não falei das flores” do Geral Vandré (Vem vamos embora que esperar não é saber…) e o rap que não sei o nome, mesmo de 2013 “Vem pra rua que a rua é maior arquibancada do país”.

Como ícones insólitos do evento:

Uns cachorros pintados, vestidos (um dos donos disse que os cachorros protestavam pelo preço da ração estar muito alto).

Um Darth Vader – que dessa vez estava do lado bom da Força; e

Um monstrinho esquisito, acho que era um alien.

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P1020911 P1020883 P1020914Não havia homogeneidade nas reivindicações. Ouvi um pouco do que segue:

  • – Impechment da Presidente;
  • – Fora PT
  • – Intervenção militar já!
  • – Não à corrupção
  • – Fora Toffoli (sério!)
  • – Salvem a Petrobrás

Algo que exerceu atração foi uma faixa verde e amarela de uns vinte metros que passeava pelos manifestantes, todos em volta a agitaram um pouquinho – eu também 🙂

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Dentre outras pequenas outras reivindicações, EU estava pleiteando “Fora PT” e “Fim da corrupção”. Voltei para casa com a certeza de que tudo poderia ter sido bem maior, sabíamos que muitos concordam com os dizeres da manifestação mas, simplesmente, não foram. Estava feliz por não ter me omitido, e sei que, assim como na manifestação de 2013, mais esse “NÃO” dado pelas ruas vai ecoar na história.

E eu estava lá.

 

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