Você pode não ter notado, mas o meu “R” é estranho, meio leprento, forçado, estrambólico mesmo.

Já me perguntaram se é frescura ou marca forçada. Pow, antes fosse! O lance é o seguinte:

Era 1978, eu tinha quatro anos de idade. Na casa onde morávamos, no bairro de Cachoeirinha, aqui em Manaus, havia umas instalações elétricas externas, fios e benjamins haviam no quarto dos meus pais.

Era uma tarde, eu havia acabado de sair do banho, até havia me enxugado mas não muito, e estava descalço. Resolvi brincar de ficar balançando um daqueles fios, não lembro o que pretendia com tal leseira; e a leseira saiu caro.

Segurei em uma tomada suspensa desse fui, onde havia algum cobre descoberto, comecei a ver e ouvir o Diabo dizer “Oi!”

Eu senti o corpo todo parado, duro, não importava o quanto eu quisesse, eu não conseguia desgrudar a mão de lá, sentia em todo corpo um misto de queimadura com cortes de gilete, ou cortes de gilete em brasa – fiquei emitindo um som alto, constante, e não conseguia controlar, é como se as cordas vocais e o pulmão vibrassem sozinhos, a visão ficava piscando – tipo estroboscópica.

Não sei quanto tempo ao certo fiquei grudado ali tomando choque, deve ter sido uns segundos – sei que foram mais ou por volta de dez segundos, pois esse tempo eu me lembro BEM de estar sentindo tudo isso, e de tentar mexer o corpo para tirar a mão dali a qualquer custo. Lembro bem que comecei em pé e depois caí, ainda com a mão grudada no fio. Cara, ficar grudado eletrocutado é diabolicamente escroto! PQP!

Não lembro mais de nada, o que sei é que me foi contado depois.

Estava havendo uma obra na casa, alguém ouviu um grito-zumbido, me puxou do fio. Minha voz parou. Fui levado ao pronto-socorro São José (ficava no centro, lá no início da 10 de Julho) – onde constataram que estava tudo em ordem comigo.

rlepr

“Em ordem” em termos, pois desde lá nunca mais consegui pronunciar o “R” decente, foi a sequela daquele choque. Fiquei falando “R” vibrato que nem o Cebolinha “tLês”, “tLintaetLês”. O resto da infãncia e adolescência deixei rolar, fui alvo de chacoas e tals, até que já com uns 17 descobri que dava para forçar um “R” artificial que simule o “R” verdadeiro.

Até hoje meu “R” é desenhado, forte, com excesso de vibrado: é que simplesmente eu não o tenho naturalmente, então tenho que “cantar” um “R”  elaborado. Na maioria das vezes sai bem natural – o que é o ideal. Mas em algumas vezes, principalmente nas aulas, fica um lance realmente punk, maluco – não raramente preciso explicar em alguma aula, para não ser alvo de risadas ou pensamentos que seja frescura – toda essa história do choque,

Pronto, acho que deixei explicado.

comments (1)

  • Raphaela de Oliveira Reply

    Marco,

    graças a Deus não aconteceu algo pior.

    Com o tempo você já conseguiu falar um R forçado, até que um dia vai conseguir falar naturalmente.
    Eu creio …

    abraço !!!

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