Para a comunidade de músicos do Amazonas o Serginho sempre foi um ícone: aquele que rompeu a barreira do território e conseguiu se firmar no “Sul maravilha”, que atingiu o nível de tocar com grandes e famosos cantores. Enfim: uma completa exceção no que toca a músicos amazonenses.

Qualquer um que ao menos o conheça de vista faz questão de dizer que o conhece, é uma distinção.

Era 1993. Ele tocava na Walse-Walse, faríamos os show de abertura pra ela. Por algum motivo o meu baixo parou de funcionar, como é fora da minha política pedir qualquer coisa emprestada, eu tinha o plano B e o C. O B era atrasar tudo, ir no estudio e pegar meu outro baixo, o C era simplesmente cancelar o show.

Ele percebeu, voou em cima de mim e jogou o baixo dele na minha mão. Era um baixo de luthier, desses feito sob encomenda, mas tinha um problema: era de cinco cordas! E o meu era de quatro. Ele deve ter percebido e disse, rindo:”

“- Esquece a quinta! Esquece a quinta!” – É que a afinação das outras quatro coincide com a do baixo de quatro cordas.

Bem, malmente, consegui fazer aquele show, passando mais da metade dele tocando a quinta corda do baixo como se fosse a quarta, mas foi melhor do que recorrer ao plano B ou C.

Pois bem, eis que no final de 2004, estou caminhando pela Teodoro Sampaio em São Paulo – a meca dos músicos – quando entro em uma loja “Bass Center” – como o nome indica, uma loja especializada em baixos.

Papo vai papo vem ´ei perguntava sobre um baixo Fodera (não ria, a marca é essa mesmo: Fodera!)…

– Quero o modelo parecido com o do Serginho, aquele que toca com o Djavam;

– O Serginho é nosso brother, pow! Temos até o CD dele aqui pra vender. E ele usa baixos Zaganin, Za-ga-nin!

“CD dele?” Como assim?

Pois é: Lá estava na vitrine o “Sérgio Carvalho”, comprei-o na hora.

É triste, mas tive que vir a São Paulo para saber que um dos maiores músicos amazonenses tinha lançado CD…

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Vamos ao CD:

Nove músicas. Embora seja o CD de um baixista, não existe proeminência absoluta do baixo em nenhuma faixa. No video do making-of, Serignho dizia “não há solos, há climas”; até tentei imprimir espírito crítico à audição, mas não adiantou, a alta qualidade do trabalho quebrou qualquer ânimus-criticandi, e lá pelas tantas já estamos é dominados pelo sorround do álbum.

O disco é uma aula de execução e de produção. Na execução das músicas, ficamos abismados com a qualidade dos músicos, aindamais quando lemos no encarte que tudo foi gravado em tomada única, take one mesmo – significa que TUDO tem que estar afinado, e estavam; aula de produção porque a gravação-mixagem-masterização está simplesmente… perfeita. No Making-Of, me apreceu que tudo foi feito em uum Mac, mas, se eu não tivesse assistido àquilo, eu bem poderia pensar que tudo foi gerado no Abbey Road, tamanha a aura grandiosa do trabalho;

Ainda quanto à qualidade dos músicos – tudo fica ainda mais espantoso quando sabemos que as músicas são suaves, detalhadas, e com clima – como me disse Alexandre Novaes (baterista) uma vez: “é mais fácil tocar música rápida do que lenta” – realmente – em músicas lentas, mormente detalhadas, qualquer erro, até de nuance, ficam mais evidentes, expostas ao extremo – e ainda assim a gravação parece que foi efetuada om registros de pistas em separado, de tão perfeita;

A apresentação gráfica do CD (sim, eu valorizo isso!) está muito legal, chegaram ao auge de fazer laminação fosca na capa – tudo muito clean e marcante – destaque para a foto da banda no estúdio – quase podemos escutar a música só vendo aquela foto;

As músicas que mais gostei já estão no meu iPod e são ótimas trilhas para puxar ferro na malhação – e para namorar também, pois as músicas realmente geram CLIMA extra-sensorial.

Está algo tão slim que parece tocado por anjos.

O que a princípio parace um CD pequeno em extensão (só nove faixas) – vemos logoque os quase 72 minutos do CD estão cheios, pois tem faixas de nove minutos.

Rótulo por rótulo, eu diria que é uma mistura de Fusion, New Age e Jazz. (Tá temos um baião).

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Quanto à questão musical, vou ser bem direto: os caras são tão bons que não me sinto à altura de criticá-los quanto à técnica.

A música “Wadi” é pura poesia em forma de música – é minha faixa preferida (e a que estou escutando agora enquanto escrevo o post); Esse micro-dalayzinho no solo de guitarra do quarto minuto e meio da música tá show!

O início da música “Segredos” é uma aula  apresentação de instrumentos em uma faixa. Começa com um teclado que já nos vai relaxando, e cada instrumento vai surgindo lentamente, até o corpo da faixa já nos pegar, entorpecidos. O piano no meio da faixa nos mostra como um instrumento pode ter destaque sem estar em volume mais alto que os demais. E quele solinho de baixo no quinto minuto e meio vai direto na alma – é Sergio sendo Sérgio.

O quinto minuto da “Em busca do que não sabemos” traz um solo de guitarra como deve ser: convicente sem gritar ou ser exagerado.

Minha cidade está muito bem representada e “Manaus” – por algum motivo que ainda não sei explicar, a música ficou a cara mesmo aqui de Manaus (já disse, não me pergunte o motivo);

“Batalha”, mormente pelo quarto minuto em diante, nos traz o momento mais pesado do disco.

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Parabéns aos produtores executivos pela iniciativa, ao Serginho pelas composições, aos músicos pela execução, e à gravadora pelo resultado.

Ah, aqui está o video do making-of:

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