Eu já quis me matar. O motivo, eu conto em algum outro post.

Cheguei a escrever a carta-testamento, parei na metade, pois me vieram alguns pensamentos que, espero, venham pra você também:

Não sei se existe vida após a morte, aliás, nem creio em dogma religioso algum. Mas li umas terias espíritas que me deixaram com muito medo. Todas as mitologias religiosas se referem a um tal “vale dos suicidas”, besteiras à parte,
o entendimento dos espíritas é no mínimo assustador, são basicamente três teorias:

Na primeira teoria, todo suicida fica condenado a ficar revivendo eternamente o momento de sua morte, não necessariamente a passagem, mas os problemas que o fizeram se matar. Isso significa que você não vai conseguir fugir do problema,
mas sim, torná-lo permanente e sabe-se lá por quanto tempo; só isso já me deixava com medo: viver umas centenas de anos com aqueles sentimentos extenuantes que eu estava!

A segunda teoria diz que o inferno do suicida é ficar assistindo ao sofrimento das pessoas que o amam, pela sua perda e pela forma como ocorreu. Isso realmente me deixava de coluna gelada! Eu pensei nos meus pais, já idosos, tendo que viverem com a minha morte – foi tão pesado que eu tenti logo esquecer a cena.
Posso afirmar isso com propriedade, pois há alguns anos uma pessoa muito próxima e querida de nossa família se matou;
e eu não consigo esquecer cada pessoa se aproximando do corpo dele no funeral e “lhe” perguntando “por que?” – eu mesmo não parava de perguntar isso sempre que olhava pra ele lá prostrado; e, no auge de nosso egoísmo, passamos a ter raiva do suicida, por ele gaver nos privado de sua companhia, é como se nós o culpássemos de forma imperdoável por ele ter saído de nossas vidas. Um misto de saudade, raiva, culpa, pena e tristeza. Pensar que era isso que eu deixaria se me matasse me ajudou a afastar-me da ideia do suicídio.

A terceira teoria, mais assustadora ainda, é a ocorrência simultânea das duas primeiras: o suicida ficaria revivendo o problema que o levou a se matar e ficaria convivendo com o sofrimento daqueles que o amavam.
Cara, isso por si só me deixou longe da ideia de “auto-assassinato”.
Não bastasse isso, eu havia lido que os suicidas, quando renascem, vem como portadores de deficiência; ou seja: quando eu voltasse aqui, seria um encargo e uma frustração. Algum casal estaria à minha espera como a continuidade de suas vidas, e teriam que conviver com alguém que não seria jamais como eles. Eu os imaginava se perguntando “por que conosco?” e tantando se enganar pensando coisas do tipo
“Nós é que somos privilegiados e especiais de termos um filho maravilhoso assim” ou coisa parecida mas, sabendo que, no fundo, eu fui uma grande frustração, e seria um peso.

Tudo ficava ainda mais aterrorizante quando imaginava que era uma decisão irreversível.

Quem diria que eu, que não acredito em religião alguma, seria salvo pelos ensinamentos de uma; continuo não sabendo se é isso mesmo, mas seria um preço muito alto a pagar pela dúvida. E que me salvou, me salvou.

Isso então que me manteve vivo: amor, medo e razão.

Vamos lá, cara: voce ainda está vivo! AINDA pode escolher. Mantenha-se assim, se não por você, por pessoas que o amam ou vão amá-lo. Não os faça pagar por algo que você pode evitar.
Mantenha-se vivo.

…E VIVA!

frcfrc

comments (2)

  • Que bom poder estar viva pra ler isto! Eu nao pensei 2x. Mas nao sei como eu sobrevivi

  • Eu nunca pensei tão seriamente em suicídio como tenho pensado nos últimos dias. Eu só não acabo com essa porra toda porque eu ainda creio num código divino, do Deus de Israel, e nesse código, suicidas são maus, E também por causa da minha mãe. Imagino o sofrimento que ela passaria. Esse é outro obstáculo para que eu não me mate. Seria muito bom acabar com tudo. Seria muito bom não ter que acordar e passar mais um dia triste com o que é minha merda de vida. Tenho 37 anos, nunca casei, não tenho filhos, estou desempregado, tenho dívidas no banco, sou moralmente falido, estou ficando cada vez mais velho e as coisas não acontecem na minha vida de bosta. Acho que esse perfil é o perfil de quem deve morrer. Imprestável, improdutivo, estéril… Eu queria muito arrumar todas as minhas coisas, ir para longe, bem longe, e arrumar um jeito de morrer que não dê trabalho para ninguém. Já sou um peso sujo em vida. Pelo menos na morte eu não quero ser um problema. Acho que comprar meu próprio caixão, entrar num hotel, escrever uma carta curta explicando que me matei (para não dar trabalho à polícia), tomar um bom banho, vestir uma roupa legal e dar um tiro na cabeça seria muito bom. Mas minha crença em Deus e minha mãe não deixam. E isso me deixa numa espécie de limbo: as coisas não mudam para melhor e eu não posso me matar. Uma das duas coisas deveria acontecer. Eu estou perdido, um barco velho à deriva.

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