Fui estudar piano em 1985, por causa de uma menina. Eu era a fim dela mas nossos horários no Ida Nelson não coincidiam – nas intermináveis conversas por telefone, ela contou que estudava piano na “Anna Carolina”, na Rua 10 de Julho. “Pronto! Já sei onde encontrá-la!”. Nem uma semana depois eu estava matriculado. Só pra fechar o lance do motivo: não adiantou muito no que tange à menina.

Alguns dos meus ídolos do rock eram pianistas, como Jerry Lee Lewis, Paul McCartney, sem contar que eu gostava pra caramba de Benito de Paula, achava o máximo ele tocando naquele pianão de caldas – então, além de guitarra… vamos ao piano! E acabei gostando e seguindo o aprendizado.

Minha aula era às quintas de manhã. de nove às onze da manhã. Estudei entre 1985 e 1989. Minha professora era a Sra. Regina Xavier, que já havia estava, como dizia, na terceira geração de alunos.

Amável, fala calma, lenta, baixa.

Mas rígida, extremamente rígida quanto ao que ensinava, só tolerava um erro, não mais; no segundo já explodia, no terceiro começava a brigar e assim ia até acertarmos. As aulas eram assim: pressão. E funcionava, que era o que importava.

Profa_Regina_1986

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Ela não tocava, ensinava por palavras. Ficávamos sentados ao piano tocando a peça do dia com ela sentada ao lado, no máximo apontava a tecla correta, e não conseguíamos (tinha acorde com mais de uma oitava de distância de uma tecla à outra), ela colocava nossos dedos nas teclas até conseguirmos.

Lhe questionei certa vez: “Suas três filhas professoras de piano tocam as peças antes de tocarmos, porque só a senhora não?” – Ela olhou para mim fixamente… olhou para o teclado… e disse: “- Não toco mais desde que meu esposo faleceu.”

(…)

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A Escola de piano “Anna Carolinna” era umas das três existentes naquela época em Manaus, juntamente com a Ivete Ibiapina e a da Professora Eva. O método era simples e eficiente, recebíamos uns livros com partituras e precisávamos devorá-las aulas após aula, terminado o livro, íamos para o seguinte e assim sempre. Vez ou outras tínhamos aula de solfejo, que é ficar cantando oralmente as notas no tempo do compasso – dificílimo.

Na aula de teoria ainda precisávamos fazer cópia das partituras e fazer a “análise” daquilo ali: tínhamos que classificar as notas, indicar as breves, semínimas, fusas, pausas, indicar a clave, os acidentes e o tom, e ela reclamava se não colocássemos a existência de anacruse e o nome das pausas, com os respectivos tempos. Aquela teoria, sei hoje, é o que se usa para tocar qualquer coisa, por isso o piano é a base dos outros instrumentos.

Uma vez ao ano, havia a festa de encerramento onde cada aluno tocava uma peça, que a tinha treinado nos últimos quatro meses.

Um ou outro aluno tinha o seu recital quando atingisse determinado nível.

Marco_Piano_1986_
Esse sou eu em 1986, em um dos eventos da escola, no Teatro do Cecomiz. Devo à Professora Regina saber ler partitura.

Assisti ao Recital de Carlos Delan e Paula Célia.

Professora Regina tinha um ouvido apuradíssimo, vez em quando ela subia para o segundo andar e nos deixava tocando, quando errávamos um notinha era só esperar o grito lá de cima “Aceeeeertaaa!”. Uma das vezes, assim que ela saiu rapidinho da sala resolvi tocar “Echoes”, no Pink Floyd (ao invés do “Muzette” do Bach, que estava na página do dia), nem bem depois de uns vinte segundos, ouvimos “Está maluco? O que é isso? Volta pro Bach!”

Meu recital seria em 1990, mas antes disso, infelizmente, ela faleceu, em 1989. Uma pena, adorava estudar ali até porque a maioria dos alunos eram mulheres 🙂 , o que me deixava ainda mais motivado a não faltar aulas.

Deve estar tocando com os anjos, aliás, deve estar ensinando-os.

Profa_Regina_1986_

(p.s.: Naquele sábado de 1989 meu irmão Marcus faltou à manhã inteira de trabalho para estar comigo no funeral da Professora Regina; lá se vão 25 anos e eu nunca agradeci. Se ler esse post, se sinta agradecido. Obrigado, Marcus meirmão!)
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  • Acabei de ler seu post sobre essa lenda manauara chamada D. Regina! Belo texto. Eu também estudei lá, inclusive, minha filha se chama Ana Carolina em homenagem a minha primeira escola de piano. Sua narração me fez lembrar os dias de “terror” que passei com ela, rsrsrs. Era exatamente como você disse: o ouvido dela era apuradíssimo. Eu ficava tão nervosa que tinha que levar toalhinhas pra enxugar o suor das minhas mãos, pois eu suava tanto que as teclas ficavam sujas, rsrsrs E olha… apanhei muitas vezes nas mãos, viu. Se eu errasse, ela batia na minha mão e aí pronto, eu não tocava mais nada. Passei uns 4 anos lá e não saí dos livros iniciais de tanto pavor que eu tinha dela. Só evoluí depois, quando passei a estudar na escola de piano que minha madrinha abriu posteriormente, rsrsrs
    Obrigada por trazer à tonta essa lembrança… foram “bons momentos ruins” que passei por lá, mas que deixaram saudades. rsrsrs
    PS.: Também aprendi a ler partitura com ela e lembro bem do marcador de compasso que ela ligava e ficava fazendo tá-tá-tá-tá-a-a,

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