Era 1986. Estudei violão com Domingos Lima. Ele era uma lenda dentre os professores de violão naquela década de 80. Sempre que perguntávamos sobre algum professor de violão, sempre ouvíamos “Domingos Lima, lá o Beco do Macêdo”.

Minha aulas eram aos sábados, de 9 às 11.

Adentrávamos à casa dele e havia uma grande sala com uns 12 stands de partituras, que usávamos pra deixar os cadernos com as lições. Nem precisávamos levar o violão, pois ele tinha uns 20 lá, eu levava o meu.

Ele pegava o violão, o afinava em menos de dez segundos (sério!), parece que já sabia de cor exatamente a tensão de cada cravelha. Não ia apertando e ouvindo o som da corda, como fazemos: ele dava UM acorde e girava as seis cravelhas e, como que por encanto, ao violão estava afinado – até hoje nunca vi nada parecido. Depois, fazia uma série de 6 acordes em menos de dois segundos, por vezes fazia um solinho rapidíssimo – era o que precisávamos pra nos empolgar para a aula.

Ele sentava à frente de cada aluno – todos ficavam em volta na sala, mas a atenção era individualizada – emborcava o seu próprio violão sobre a perna, usando a parte traseira da caixa de ressonância como mesa. Ele então puxava uns carimbinhos com o gráfico das cordas de violão, carimbava umas quatro marcas em uma folha do caderno, desenhava com pontos a posição dos acordes que íamos aprender naquele dia, escrevia a letra (cifra) e os acordes.

Esses carimbinhos, que não tinham a manopla (era só a parte que imprimia no papel), ficavam dentro de um saquinho e era bem velhinhos, acho que o mais novo devia ter uns vinte anos de uso. Se na primeira aula o aluno não tivesse levado caderno (tinha aluno que chegava lá, se matriculava e já iniciava no mesmo dia), ele carimbava atrás da folha da primeira música impressa.

A primeira música era a mesma para todos: “Terezinha de Jesus” – como eu disse, vinha impressa; todas as outras ele mesmo escrevia, aula a aula, nas páginas do caderno.

Ele então tocava a música na nossa frente e dizia: “Faça igual!”. Colocava o violão na nossa perna e lá íamos tentar, no início o som não saía, mas ele mandava repetirmos assim mesmo.

Até que ia saindo.

E assim era; a cada semana, uma nova música, mais e mais difícil: “Parabéns pra você”, “A casa do sol nascente” (essa era importante, pois era a primeira onde se usava ‘pestana´, que é comprimir as seis cordas com o dedo indicador), “Carinhoso”, “A volta do boêmio”, “Ronda”…. Lá por determinada aula ele começava a permitir que levássemos músicas cifradas para ele nos explicar como tocasse. Eu nunca levei, sempre acatava as que ele ensinava, claramente ele era fã de músicas de serestas – exatamente o que tocávamos em rodas de festas de aniversário – entre pessoas mais velhas – na época.

No início de cada aula ele pedia para ouvir a música da aula anterior; se estivesse bem executada, se passaria para a próxima, se não, aquela aula seria direcionada para treinar novamente aquela mesma música, até se chegar à execução perfeita.

Não sei se consciente ou inconscientemente, ele conseguia algo engenhoso: Já na primeira aula o aluno saía tocando a primeira música! Isso servia para re-empolgar o aluno para seguir adiante no aprendizado.

Depois partíamos para os solos, ele usava o método de numeração.

Lembro que na frente da casa havia uma calçada e, em um dos sábados onde não estava calor, resolvi treinar a música do dia sentado naquela calçada.

Foi quando então saí de lá, quase um ano depois, já aprendi o que eu queria ter aprendido. Parei na música (solo) “Gota de lágrima”

Ele era violonista no grupo “Primas & Bordões”, que acompanhava os cantores no programa “Carrossel da Saudade” (Na TV Educativa, depois TV Cultura).

Faleceu no meio da década de 90.

No encarte do meu CD lançado em 2007, o “As cordas, eu e o nada”, onde gravei as três pistas de violão da base, tem um agradecimento especial ao Mestre Domingos Lima.

Hoje, a rua em que ele residia, a antiga Beco do Macêdo, se chama “Rua Domingos Lima”. Ainda não é uma homenagem à sua altura, mas já é um bom começo.

Fonte da imagem: Blog do Humberto Amorim (humbertoamorim.blogspot.com)
Fonte da imagem: Blog do Humberto Amorim (humbertoamorim.blogspot.com)

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